O CRIME DO POETA




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Renã Corrêa Pontes




Fui condenado à morte certa, injustamente,

por um júri severo e, de fato, inclemente,

por cantar a salvação.

Urdida a mais grandiosa das temeridades,

disseram que meus versos pelas liberdades,

eram afronta à nação.



Foi o dia mais triste que vivi na vida,

quando a dura sentença foi por mim ouvida,

me sangrava o coração:

Quem tem com que nos pague não nos deve nada!

Pagarás os teus crimes todos, camarada!

Para ti não há perdão!



Assim, não mais fui bom e nem também benquisto.

Tive meu nome inscrito em sinistro registro

e lançado na prisão,

senti ânsia severa de correr pra fora.

Pensei: estou pagando esta falta agora,

para salvar um irmão.



Passei dias e noites no esquecimento.

Esperei refazerem o dito julgamento

que prejudicou a mim.

Meus algozes privaram-me da poesia,

nos outros, sim! Por medo, em mim ninguém batia:

isto foi menos ruim.



No tétrico predio, sofrendo meu fado,

com homens e mulheres, fui eu misturado.

Estava a Cláudia também.

Encontrei a moçoila tão linda e branquinha,

bem quis deitar a sorte dela junto a minha.

Para tudo eu disse amém.



Os dias de tristeza soam leves quando

um dia a linda moça eu terminei amando.

A mulher engravidou.

Eu, preso, fui privado de dar-lhe assistência,

na cela do meu lado, pedindo assistência

uma menina inspirou.



Gerou-se no ambiente grande barulheira.

E o medo fluiu por toda a minha pele — à beira

da loucura das prisões.

Vi a lua saindo, cheia de desgosto,

no definhar das luzes piscando com gosto

de mil privatizações.



Fiquei por inimigo dos nobres costumes.

Incineram, com ódio, todos os volumes

de poemas que escrevi.

Ao destrancarem minha cela me puxaram,

as mechas dos cabelos nas cordas engastaram.

Ai, que dores que eu senti.



Em riste os lanceiros vão ao parapeito,

trociscas lanças cravam no meu pobre peito,

com bastante intrepidez.

Meu grito seco ecoa ao peso do açoite,

do peito flui o sangue arterial, na noite,

me mataram de uma vez.



Meu sonho cai crivado, penso na minha filha

e na maldita herança, qual barco sem quilha

que para ela vou legar.

Com uma carranca má e sinistra aura tétrica,

os especuladores da energia elétrica,

conseguiram me matar.



Não desfrutei da honra da ampla defesa,

meu corpo com sua alma a mantiveram presa...

Com o pensamento em Deus,

minhas pernas falharam, foi-se o sentimento,

esvaiu-se do corpo o derradeiro alento,

mas... livrei-me dos ateus.

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